
Durante anos, Erika Siqueira atravessou Maceió em uma rotina de seis ônibus por dia, dividindo o tempo entre faculdade, estágios e casa. Sem horas suficientes para estudar, fazia dos trajetos uma extensão da sala de aula, quase sempre com livros no colo. O que ela não imaginava era que, tempos depois, um daqueles passageiros que acompanhavam silenciosamente sua dedicação se tornaria parte de sua história profissional.
No primeiro ano de advocacia, Erika foi procurada pelo cobrador do último ônibus que costumava pegar, perto das 23h. Ele havia acompanhado sua rotina de estudos durante anos e, ao encontrá-la pelo Instagram, pediu ajuda para a aposentadoria da mãe, que já enfrentara sucessivas negativas do INSS.
O episódio representa uma ligação que atravessa toda a trajetória da advogada: a relação entre trabalho, reconhecimento de direitos e dignidade humana.
Hoje, inscrita na OAB/AL , Erika está à frente do escritório Erika Siqueira Advocacia Especializada, com matriz em Maceió e unidades na Bahia, em Pernambuco e em São Paulo, além de atendimento digital em todo o Brasil. É também professora de pós-graduação, escritora e especialista em Direito Previdenciário, com dedicação particular à Aposentadoria Especial.
As raízes de uma carreira construída pelo trabalho
Antes de conhecer os tribunais, Erika conheceu de perto a realidade de quem trabalha para sustentar uma família.
Seus pais deixaram Correntes, no interior de Pernambuco, ainda adolescentes, em direção a Maceió. Chegaram sem formação escolar e sem estabilidade financeira. O pai trabalhou como garçom; a mãe, como caixa de loja e cozinheira.

Quando o pai conseguiu abrir um restaurante, Erika e sua irmã, Emmanuelle, ainda crianças, passaram a ajudar como garçonetes. Mais tarde, as duas também participaram da venda de lanches preparada pela mãe.
A experiência familiar seria determinante para a forma como Erika compreenderia a advocacia.
Sua própria trajetória profissional começou cedo, com atividades que incluíram a venda de bombons e colchões. Ao deixar um emprego, decidiu investir todo o valor recebido na rescisão em um curso preparatório para concursos públicos. Foi nesse período que descobriu o Direito e teve o primeiro contato com a área previdenciária.
Conquistou uma bolsa integral pelo Programa Universidade para Todos (ProUni) e ingressou na Faculdade de Alagoas (FAL). Durante a graduação, conciliou os estudos com estágios no Tribunal de Justiça de Alagoas, no Ministério Público e na Justiça Federal.
Foi justamente na Justiça Federal que encontrou a área em que desejava construir sua carreira. Ao acompanhar processos previdenciários, passou a observar histórias de trabalhadores que buscavam o reconhecimento de direitos depois de anos de contribuição e dedicação profissional.
A identificação foi imediata. Erika decidiu que atuaria no Direito Previdenciário desde o início da advocacia.
Ainda no nono período da graduação, foi aprovada no exame da OAB em sua primeira tentativa. Entre as lembranças mais significativas daquela conquista está a presença do pai, que pôde acompanhar a realização desse objetivo.
Da primeira sala ao atendimento em todo o Brasil
A construção do escritório próprio exigiu uma decisão importante. Depois de aproximadamente três anos de advocacia em uma banca que não trabalhava com Direito Previdenciário, Erika resolveu deixar a estrutura em que havia começado para se dedicar à área escolhida.
O início foi modesto: uma pequena sala alugada e a utilização de espaços disponibilizados pela OAB para profissionais em começo de carreira.
Sem uma grande estrutura, o crescimento aconteceu principalmente por indicações. Clientes atendidos passaram a recomendar o trabalho a outras pessoas.
Por um período, Erika conduziu as atividades sozinha. Posteriormente, sua irmã Emmanuelle passou a integrar a rotina do escritório, primeiro como estagiária e depois como advogada. A parceria acompanhou a abertura da primeira unidade física e a expansão das atividades.
A dimensão humana desse trabalho aparece em histórias que permanecem na memória da profissional.
Além do caso da mãe do cobrador de ônibus, Erika recorda uma cliente que vivia em situação de extrema pobreza. Após a concessão de um benefício previdenciário, a mulher conseguiu reformar a própria residência e substituir por uma porta a lona que antes protegia a entrada da casa.
Para a advogada, episódios como esse demonstram que o alcance de um benefício ultrapassa o aspecto financeiro e pode representar mudanças concretas nas condições de vida de uma família.
Essa percepção está sintetizada na frase escolhida para a entrada do escritório:
“Aqui a sua história importa”.
Aposentadoria Especial: conhecimento técnico para reconhecer direitos
Pós-graduada em Direito Previdenciário pela PUC Minas e em Aposentadorias Especiais pela Escola Superior da Magistratura Federal, Erika concentra parte importante de sua atuação no reconhecimento de períodos trabalhados sob condições prejudiciais à saúde.
Entre as atividades frequentemente analisadas pelo escritório estão aquelas exercidas por profissionais da saúde, eletricistas, vigilantes e trabalhadores expostos a ruído, agentes químicos e biológicos.
A Aposentadoria Especial exige uma avaliação detalhada das condições efetivas de trabalho e da documentação correspondente. Segundo Erika, um dos obstáculos recorrentes está no Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP), documento que reúne informações sobre o histórico profissional e a exposição a agentes nocivos.
Quando o PPP apresenta dados incompletos ou incorretos, o reconhecimento de determinados períodos pode ser prejudicado.
A advogada também chama atenção para os efeitos da Reforma da Previdência de 2019. Embora as regras tenham se tornado mais restritivas, a possibilidade de reconhecimento da atividade especial permanece, desde que atendidos os requisitos legais.
No Regime Geral de Previdência Social, períodos especiais trabalhados até 13 de novembro de 2019 ainda podem ser convertidos em tempo comum, conforme as regras aplicáveis. A análise depende das condições efetivamente comprovadas e do enquadramento jurídico de cada situação.
Para Erika, preservar documentos profissionais, verificar as informações do PPP e compreender o próprio histórico contributivo são cuidados importantes para evitar dificuldades futuras.
Além da Aposentadoria Especial, o escritório atua com aposentadorias, revisões de benefícios, BPC/LOAS, benefícios por incapacidade, auxílio-acidente, pensão por morte e questões previdenciárias de servidores públicos.
A especialização, entretanto, não afastou um princípio que a acompanha desde a infância: compreender as circunstâncias de cada trabalhador antes de enxergar apenas os documentos de um processo.
AMPREV: quando o crescimento profissional se torna coletivo
A experiência individual de Erika também encontrou espaço em um projeto de fortalecimento da advocacia previdenciária feminina.
A AMPREV — Associação das Mulheres Previdenciaristas — surgiu da iniciativa de 15 mulheres que identificaram a necessidade de criar um ambiente próprio para estudo, apoio profissional e desenvolvimento conjunto.
Segundo Erika, a associação reúne atualmente mais de 160 integrantes distribuídas pelo Brasil.
Em março de 2026, Maceió recebeu o CONAMPREV, congresso voltado às mulheres que atuam na advocacia previdenciária. O encontro representou uma etapa importante do projeto de integração e valorização profissional desenvolvido em torno da associação.
O trabalho da AMPREV, porém, não se limita à realização de eventos.
A entidade desenvolve mentorias gratuitas e exclusivas para associadas, encontros quinzenais em grupo e workshops periódicos. A proposta é aproximar profissionais com diferentes níveis de experiência, permitindo que advogadas em início de carreira compartilhem dúvidas e perspectivas, enquanto as mais experientes contribuam com o conhecimento acumulado na prática.
A estrutura também contempla núcleos dedicados à jovem advocacia e aos estudos previdenciários, à saúde física e mental das profissionais, à assistência social e à defesa das prerrogativas da advocacia.
Para Erika, a proposta é reconhecer que o desenvolvimento profissional não depende apenas de conhecimento jurídico. Também envolve saúde, colaboração, estrutura de trabalho e oportunidades de crescimento.
A advogada destaca a participação de Juliana Bezerra, cofundadora e vice-presidente da AMPREV, e de Manu Siqueira, também cofundadora, além de reconhecer o trabalho de Fanny Costa, Vívian Bastos, Mirele Vieira, Karinne Oliveira, Jessika Coelho, Karlane Celestino, Jessica Carla e Margareth Farias.
Ela também ressalta a importância das empresas patrocinadoras que contribuem para a manutenção e o desenvolvimento das atividades da associação.
Na visão de Erika, investir na qualificação de uma advogada significa fortalecer, simultaneamente, a estrutura profissional que atende as pessoas que dependem de orientação previdenciária.
Entre a advocacia, a vida acadêmica e o legado familiar
Além da expansão do escritório e das atividades associativas, Erika pretende aprofundar seus estudos e pesquisas sobre direitos fundamentais e dignidade da pessoa humana, aproximando ainda mais sua atuação jurídica da produção acadêmica.
Seu objetivo é continuar ampliando a estrutura profissional sem perder a atenção individual às histórias que chegam ao escritório.
A relação entre passado e futuro também ganhou espaço na literatura.
Ao participar de um livro da Série Mulheres, da Editora Leader, Erika registrou passagens que marcaram sua formação: a infância trabalhando no restaurante do pai, as primeiras experiências comerciais, a estudante que aproveitava os trajetos de ônibus para ler e a advogada que decidiu iniciar o próprio escritório apesar das incertezas.
O relato também funciona como um reconhecimento das pessoas que participaram de sua construção profissional, especialmente seus pais e sua irmã Emmanuelle.
Ao refletir sobre o legado que deseja deixar, Erika relaciona o sucesso à capacidade de transformar positivamente a vida de clientes, preservar a integridade profissional e abrir oportunidades para outras mulheres.
Mais do que expandir unidades ou acumular conquistas, sua missão declarada é honrar a história dos pais, dois trabalhadores que, mesmo diante das limitações financeiras, fizeram da educação das filhas uma prioridade.
No livro, a advogada sintetizou essa visão em uma frase que também expressa seu compromisso com o crescimento coletivo:
“Tenha fé e vá. E, quando chegar, não chegue sozinha”.
A menina que ajudava a servir mesas, a estudante que lia nos ônibus e a advogada que começou em uma pequena sala fazem parte da mesma história. Uma história em que a ascensão profissional não apagou as origens, mas ajudou a definir o sentido do trabalho: reconhecer direitos, preservar a dignidade e contribuir para que outras pessoas também possam construir seus caminhos.
Mín. 24° Máx. 39°