
Há experiências que transformam não apenas a maneira como uma pessoa enxerga a vida, mas também a forma como exerce sua profissão. Para a advogada Jessika Coelho, que enfrentou dois tratamentos oncológicos, compreender as dificuldades de quem convive com uma doença deixou de ser uma realidade conhecida somente por meio dos processos jurídicos.
O medo diante de um diagnóstico, a preocupação com a estabilidade financeira, as mudanças na rotina e as decisões que precisam ser tomadas durante um tratamento passaram a fazer parte de sua própria história.
Com atuação na advocacia desde 2012, Jessika está à frente da Coelho Advocacia e Consultoria, em Maceió, Alagoas. Sua trajetória profissional reúne experiência nas áreas previdenciária, da saúde e trabalhista patronal. Mas foi a vivência com o câncer que aprofundou sua compreensão sobre os desafios enfrentados por pessoas que, além de cuidar da saúde, precisam assegurar seus direitos.
A experiência pessoal não substituiu o conhecimento jurídico construído ao longo dos anos. Pelo contrário, ampliou a dimensão humana de uma atuação que exige análise técnica, responsabilidade e atenção às particularidades de cada caso.
Quando a experiência pessoal encontra a atuação profissional
A trajetória de Jessika na advocacia foi construída a partir do estudo, da prática e da busca por oferecer orientação jurídica clara em situações decisivas. Ao longo da carreira, aprofundou seus conhecimentos no Direito Previdenciário, acompanhando especialmente as dificuldades de pessoas que precisam de proteção social após doenças ou diante de limitações para o trabalho.
Entretanto, enfrentar o câncer enquanto conciliava a advocacia, a maternidade e a vida familiar trouxe novos desafios.

Foi necessário reorganizar a rotina, reconhecer limites e encontrar maneiras de dar continuidade ao projeto profissional que vinha construindo.
Essa experiência também reforçou sua percepção de que o adoecimento frequentemente ultrapassa as questões médicas. A preocupação com a renda familiar, o acesso aos tratamentos e a continuidade da vida profissional pode se somar às incertezas relacionadas ao diagnóstico.
Hoje, essa compreensão influencia sua maneira de atender pessoas que procuram orientação jurídica durante períodos de vulnerabilidade.
“Minha vivência pessoal não substitui o estudo de cada caso, mas me ajuda a reconhecer preocupações que nem sempre aparecem de imediato no relato do cliente.”
Para Jessika, ouvir atentamente o cliente é parte importante do trabalho jurídico, especialmente quando a demanda envolve saúde, capacidade laboral e segurança financeira.
Os direitos de quem enfrenta o câncer
Uma das questões que a advogada considera fundamentais é a falta de informação sobre os direitos previdenciários e assistenciais de pessoas diagnosticadas com câncer.
Segundo Jessika, é comum que o paciente precise lidar com diferentes preocupações simultaneamente. Enquanto busca tratamento, pode surgir a necessidade de afastamento do trabalho, de manutenção da renda ou de providências para obter medicamentos, exames, cirurgias e outros cuidados de saúde.
Nesse contexto, ela chama atenção para um equívoco recorrente: acreditar que o diagnóstico de câncer, por si só, garante automaticamente a aposentadoria.
A concessão da aposentadoria por incapacidade permanente depende da análise dos requisitos previdenciários, da incapacidade para o trabalho e da impossibilidade de reabilitação profissional, conforme as condições de cada situação.
“O diagnóstico é relevante, mas a análise precisa considerar a realidade daquela pessoa, sua atividade e as limitações demonstradas pelos documentos médicos.”
A advogada também destaca a importância de preservar laudos, relatórios médicos, exames, prescrições e registros de eventuais negativas de cobertura por planos de saúde.
Esses documentos ajudam a compreender a situação e a avaliar as medidas jurídicas cabíveis.
Sua atuação previdenciária abrange benefícios por incapacidade temporária e permanente, auxílio-acidente, aposentadorias, pensão por morte, salário-maternidade e o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), de natureza assistencial.
Além das demandas de pacientes oncológicos, Jessika dedica atenção às necessidades de pessoas com deficiência e famílias de pessoas com transtorno do espectro autista. No Direito do Trabalho Patronal, desenvolve atividades de consultoria preventiva, análise documental e defesa de empregadores.
Empreendedorismo, maternidade e os desafios de construir um escritório
A construção da Coelho Advocacia e Consultoria representa outra dimensão importante de sua trajetória.
Empreender na advocacia exigiu disciplina, amadurecimento e decisões que contribuíram para consolidar sua identidade profissional. Conciliar a gestão do escritório com as responsabilidades familiares e os tratamentos oncológicos tornou esse processo especialmente desafiador.
Jessika se apresenta como mulher, mãe, esposa, cristã, advogada e empreendedora. São dimensões de sua vida que coexistem e influenciam a maneira como compreende suas responsabilidades.
Na relação com os clientes, considera a escuta atenta, a comunicação acessível e a análise cuidadosa dos documentos elementos essenciais de seu trabalho.
Para ela, reconhecimento profissional não deve ser construído sobre promessas, mas sobre estudo contínuo, organização, honestidade e coerência entre aquilo que é apresentado ao cliente e o serviço efetivamente prestado.
Essa visão também orienta seus projetos para o futuro.
Uma voz para outras mulheres
Ao compartilhar sua história, Jessika pretende contribuir para uma conversa que vai além dos direitos previdenciários.
Depois de enfrentar dois tratamentos oncológicos, deseja incentivar outras mulheres a prestar atenção ao próprio corpo, investigar alterações, procurar avaliação médica e manter os cuidados e exames recomendados para cada situação.
Sua intenção é utilizar a experiência vivida para ampliar o acesso à informação e estimular uma postura mais atenta à saúde.
No campo profissional, planeja consolidar a Coelho Advocacia e Consultoria no Direito Previdenciário e no Direito à Saúde, especialmente no atendimento a pessoas que enfrentam o adoecimento. Entre seus objetivos também está ampliar a produção de conteúdo jurídico acessível, capaz de ajudar a população a compreender melhor seus direitos.
Para Jessika, a advocacia ganhou um significado que ultrapassa a atuação em processos e demandas administrativas. Sua história pessoal aproximou ainda mais duas questões que considera inseparáveis: a proteção dos direitos e o respeito à realidade humana de quem precisa exercê-los.
A advogada deseja construir um legado que combine conhecimento técnico, responsabilidade profissional e incentivo ao cuidado com a saúde.
E, ao transformar uma experiência tão significativa de sua vida em uma oportunidade de orientar outras pessoas, procura mostrar que a informação pode representar um importante instrumento de segurança, autonomia e dignidade para quem enfrenta momentos de incerteza.
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