
As viagens diárias de ônibus entre o interior de Alagoas e a capital fizeram parte da rotina de Karlane Oliveira durante a graduação em Direito. Filha de um agricultor e de uma trabalhadora autônoma, ela precisou conciliar a formação universitária com os desafios de quem não dispunha de uma estrutura de apoio na cidade onde estudava.
Na família, não havia advogados que pudessem orientar seus primeiros passos. Tampouco contava com experiências anteriores em escritórios ou estágios jurídicos. Ainda assim, depois de concluir a graduação e conquistar a aprovação no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), decidiu apostar na advocacia autônoma.
Três anos depois, Karlane Celestino de Oliveira é sócia-fundadora do escritório Dias & Oliveira, sediado em União dos Palmares, Alagoas, com atuação em todo o território nacional.
Sua trajetória reúne a construção de um espaço profissional próprio, a identificação com o Direito Previdenciário e o desejo de mostrar que a ausência de referências familiares na área jurídica não precisa representar um impedimento para quem pretende construir uma carreira.

A escolha pelo Direito Previdenciário e o propósito de transformar realidades
O início da carreira de Karlane foi dedicado à advocacia criminal. Pouco tempo depois, entretanto, a profissional decidiu mudar os rumos de sua atuação e encontrou no Direito Previdenciário uma identificação que considera decisiva.
A mudança representou mais do que uma escolha de especialidade. Foi também a descoberta de uma área na qual passou a reconhecer seus valores e propósitos profissionais.
Atualmente, sua atuação no escritório é dedicada exclusivamente às demandas previdenciárias e assistenciais, com destaque para aposentadorias de segurados especiais rurais, salário-maternidade e Benefício de Prestação Continuada (BPC), especialmente em casos envolvendo crianças autistas e pessoas idosas.
“Levar dignidade, levar o direito, fazer a diferença e colocar comida na mesa de quem não tem” é como Karlane descreve parte da motivação que encontrou na advocacia previdenciária.
Essa identificação também dialoga com suas origens. Ao crescer em uma família ligada ao trabalho rural e autônomo, a advogada conheceu uma realidade que hoje se relaciona diretamente com parte das demandas acompanhadas em seu escritório.
O desafio de começar sem referências na profissão
Entre as dificuldades enfrentadas nos primeiros anos, Karlane destaca a insegurança sobre como iniciar a advocacia: compreender a rotina profissional, estruturar o trabalho e tomar decisões sem contar com uma referência jurídica dentro da família.
Nesse processo, o apoio de pessoas que conheceu ao longo do caminho teve importância especial. A advogada reconhece a contribuição daqueles que a orientaram e ajudaram a enfrentar os primeiros desafios da profissão.
Hoje, essa experiência influencia sua relação com os colegas que estão começando. Karlane procura receber e orientar jovens advogados que enfrentam dúvidas semelhantes às que ela própria teve no início da carreira.
Para a profissional, manter-se na advocacia autônoma é uma de suas principais conquistas. Embora reconheça que os desafios continuam presentes, considera que a flexibilidade de horários, a liberdade geográfica e a possibilidade de conquistar independência financeira estão entre os aspectos que tornam essa escolha profissional significativa.
Atendimento humanizado e informação como diferenciais
Em um cenário de crescente digitalização dos serviços, Karlane acredita que a proximidade com o cliente permanece como um dos elementos mais importantes de sua atuação.
A advogada valoriza o atendimento personalizado, a escuta e a possibilidade de compreender a realidade de cada pessoa antes de tratar sua demanda jurídica.
Segundo ela, levar seus princípios e valores pessoais para o exercício profissional é o que diferencia sua maneira de advogar. A sinceridade, o contato humano e a atenção individualizada são características que pretende preservar e aperfeiçoar.
Na área previdenciária, Karlane também chama atenção para a necessidade de ampliar o conhecimento da população sobre o BPC.
O benefício, previsto na Lei Orgânica da Assistência Social, possui natureza assistencial e não se confunde com a aposentadoria. É destinado a pessoas idosas a partir de 65 anos e a pessoas com deficiência que atendam aos requisitos legais, inclusive os relacionados à situação socioeconômica familiar.
Para a advogada, a confusão entre benefícios assistenciais e previdenciários demonstra a importância de uma orientação acessível, capaz de esclarecer direitos e evitar interpretações equivocadas.
O reconhecimento na jovem advocacia
Um dos acontecimentos que marcaram a trajetória recente de Karlane foi o convite recebido da presidente da subseção da OAB de sua região para assumir a presidência da Comissão da Jovem Advocacia.
Segundo seu relato, o convite surgiu após seu trabalho e posicionamento profissional ganharem reconhecimento na região, mesmo com pouco tempo de exercício da advocacia.
Inicialmente, a advogada chegou a questionar se merecia tamanha responsabilidade. Com o tempo, passou a compreender o reconhecimento como resultado da dedicação empregada na construção de sua carreira.
A experiência também reforçou um objetivo que pretende desenvolver nos próximos anos: contribuir para que novos profissionais, especialmente aqueles que não possuem familiares na área jurídica, encontrem oportunidades e apoio para iniciar suas trajetórias.
O futuro de quem deseja abrir caminhos
Ao projetar os próximos anos, Karlane Oliveira não esconde sua ambição profissional. Seu objetivo é tornar-se uma das principais referências da advocacia em sua região, sem deixar de lado os princípios que orientaram seus primeiros passos.
Mais do que ampliar o reconhecimento pessoal, deseja construir uma trajetória capaz de inspirar jovens advogados que, assim como ela, iniciam a profissão sem uma rede familiar de contatos ou experiências prévias no meio jurídico.
Para Karlane, sua história é uma demonstração de que a origem no interior, a ausência de privilégios e as dificuldades do começo não precisam definir os limites de uma carreira.
Entre as viagens de ônibus para estudar, a decisão de empreender na advocacia e o reconhecimento recebido na jovem advocacia, a profissional segue construindo seu espaço com uma convicção: o crescimento individual também pode servir para abrir portas a quem vem depois.
É essa perspectiva que pretende transformar em legado, unindo realização profissional, defesa de direitos e incentivo às novas gerações da advocacia.
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